Este blog é uma reunião de textos exclusivamente autorais. Para conhecer mais de mim, dividir sons e sabores poéticos, musicais, cinematográficos, e tantos outros cheiros mais além dos meus, venha tomar um expresso esparramado nas almofadas fofas do meu outro blog, o Abundante-mente. Te espero lá com as velas acesas.

26 de abril de 2010

Dos tantos outros em mim

É do corpo que me escapolem as palavras. Fugidias, escorregam dele inteiro - cada poro estrapolando os sussurros incontidos de ser outro, dentro. Nesse momento uno, sou o que não sou; esgotada em meio a milhões de tantos outros sentires de tanta gente que me povoa, dentro de um peito aparentemente inóspito - oásis e reflexo caleidoscópico. Não escolho a dedo as noites insones em que me esvoaçam das falanges curtas os desejos que não desejo. Menos ainda os dias cheios em que me rodopiam ensandecidos os seres tantos que me habitam. São eles, donos de si - tão, tão além de mim - que me tomam inteira e me ultrapassam léguas; demasiadas lonjuras que tateio cega. Me escancaram despudorados seus próprios mundos, distantes, alienantes, matérias em si mesmos - alheios. E eu escrevo. Não soluço odes de dor. Me riacham as meretrizes gotas janelas abaixo e umedecem o rascunho em que tecem a si mesmas - sem qualquer mínima interferência minha. Meu peito cala e se anula - desnudo receptáculo adunco de poréns de outrem. Nessa hora estanque, não sou. Sou além. É a vida que pulsa dos cheiros dos corpos que me moram inescrupulosos, sem quitar o aluguel mensal. Inquilinos mal educados que não pedem licença e ainda abusam da hospedagem - esses tantos personagens - sem um único e reles agradecimento sequer. Sentimentos que desconheço e que ainda assim me entopem e vazam - sem a dignidade íntegra dos que são em si - e ainda me arrancam a cada verbo dos meus próprios braços. Tão frágeis braços que mal me acolhem os cacos. Não há no mundo, eu bem sei, solidão maior que ter a casa cheia e se ausentar de si mesmo por falta de espaço. Isso acontece e se repete em mim sempre que me ocupam os cômodos mundos tantos, outros-estranhos. E quase nada me resta para ser, além de tudo o que nunca fui nas tantas e tantas palavras que me despedem todos os dias - de dentro me saltam sem uma gota sequer de mim em si. E ainda assim, arrebatada por um sentimento de inevitabilidade incorruptível, me entrego inteira - mesmo que sempre aos pedaços. Carrego nas costas e no peito todos os sentimentos do mundo. E isso, enlouquecedoramente, me faz viver. Então eu vivo. As tantas vidas dos tantos outros - aqui, bem dentro de mim.


Sylvia Araujo





PS: Queridos, estou sem computador. Esse post foi publicado através de um note sequestrado. rs É provável que até ser resolvido o problema da minha máquina, minhas visitas aos jardins de vocês não aconteçam, e as postagens por aqui sejam escassas, ou nulas. rs Assim que voltar me comprometo a beijar cada um, com todo carinho do mundo, até lá, fiquem com os meus outros, e escrevam bastante para que eu tenha muito o que ler e me deliciar quando retornar. Beijocas enormes e abraços super apertados.

7 comentários:

Mai disse...

E é assim nas lonjuras e nas águas fundas que as palavras são gestadas.
Corpo é linguagem que na poesia se traduz.
beijos, Sylvia

Ju Fuzetto disse...

Somos aprisionados pela nossa solidão congestionada!!!

Adorei o texto flor!!!


beijos

Sabiana disse...

Ai Sylvia, conheço bem essa fulga de si, por falta de espaço.

Volte logo! Já estou com saudades.

Mais um imundo no mundo impuro. disse...

Adorei ler isso.

Há tantos outros em nós...

Abraços

Elis disse...

Aguardo, então o proximo texto com a lembrança bonita deste!
É desses assim, bom de ler!
Abraço
Elis

Ricardo Valente disse...

Muito bom post!
Abraço

Pâmela Grassi disse...

Do corpo que nos entorpece de alheios, os fragmentos destes traduzidos naquilo que sentimos,

texto fragmentado de boniteza,