Este blog é uma reunião de textos exclusivamente autorais. Para conhecer mais de mim, dividir sons e sabores poéticos, musicais, cinematográficos, e tantos outros cheiros mais além dos meus, venha tomar um expresso esparramado nas almofadas fofas do meu outro blog, o Abundante-mente. Te espero lá com as velas acesas.

15 de abril de 2010

Eco

Aqueles nossos beijos cor de sangue. Ainda guardo todos, feito relíquia, aqui no peito encardido. Era tudo tão azul quando teus sorrisos me desejavam bom dia, do meio daquela cara amassada - olhos famintos, mãos desenhistas. Teus dedos rascunhando as minhas curvas. Meus olhos se entregando aos teus, enquanto a tua respiração branca ritmava a minha aceleração alaranjada. Aquela tua leveza bossa nova que sempre conseguia cadenciar meu rock n' roll. Só o teu silêncio me acalmava. Só o teu abraço me fazia ninho. Você não tem ideia do quanto a tua ausência me arde. Do quanto me queima esse travesseiro vazio. Do quanto me estraçalha não ter que pular teus sapatos no meio da sala todas as noites. Eu adorava quando as tuas palavras me violavam, aquele jeito quase sem som de dizer eu te amo - só teu. Teus dias inteiros distante, sem sair um minuto de dentro de mim. Eu te suava. Eu te suspirava a cada meia hora. Nos intervalos dos meus devaneios frenéticos de desamor, eu te amava muito. Eu te amava tanto, que te queria pedaços, pra poder te engolir inteiro e sentir teu suco enchendo a minha boca - feito maçã. Você não sabe o quanto eu chovi quando aquela porta bateu. Nem um adeus, ou fique bem, ou até um dia. Como você pôde fazer isso com as nossas juras? Como você pôde rasgar as nossas cartas, arranhar assim meu peito, me cuspir na cara, como? Eu sinto tanto a tua falta. Depois de tanto tempo ainda escuto aquele eco que vinha de ti - malas nas mãos. Você ficou oco com a minha aridez. Eu queria te pedir não vá, te suplicar fica, eu queria gritar que você era o meu mundo, o meu ar, a minha vida, mas o grito não veio. Eu queria, queria muito deixar tudo aquilo sair, mas o grito simplesmente não veio. Ele ficou guardado em mim, perdido no meio de tanta coisa que eu tinha pra te dizer, mas não disse. Eu quis te sussurrar que meus hojes eram futuro ao teu lado. Que sempre era mentira quando eu te falava que não nasci pra ser mãe. Que eu me sentia segura nos teus braços. Que você era poema escorrendo pelos poros. Que teu sorriso iluminava meus dias e os teus soluços me enchiam de ternura. Mas não deu tempo. A tua sensibilidade não suportou a minha dureza. Eu te feri. Enchi teu coração de espinhos e as tuas mãos de um vazio que era todo meu - e não teu. Porque você sempre teve um mundo inteiro nas mãos, e eu te arranquei tudo. Te virei do avesso, te tirei o chão. Te fechei os olhos. Te aturdi. Eu sei. Mas eu fiz tudo isso porque tive medo. Eu morria de medo do sentimento que me tomava quando a tua mão segurava a minha. Tinha pavor da tua fortaleza doce que sobrepunha a minha fraqueza bélica. Você era mar no cio e eu era rio - aprisionado pelas margens secas. E hoje eu fico aqui derramando todas as lágrimas que eu engoli nas nossas brigas mais bobas. Desentortando todas as esquinas que eu criei pra fugir do teu amor. Engarrafando toda a poesia tua que ficou gravada em mim, pra beber gole a gole e me embriagar de um você que eu - insensível - consegui destruir.

Sylvia Araujo

6 comentários:

Ju Fuzetto disse...

Ameiiiiiiii cada frase....


bom final de semana flor!!!

beijos

Azul disse...

muito bom te ler! sempre!
beijos!

Sabiana disse...

Poeta, vc consegue...
Desenhar com palavras, poesia e intensidade, aquilo que sentimos com o coração e por vezes não conseguimos ilustrar de jeito diferente, senão com lágrimas.

Confesso que li 05 vezes e pretendo ler mais.

Um texto digno das construções do Chico Buarque.

Lindo!

Um beijo

Macaires disse...

A dor da perda é algo irreparável, mas apesar de tudo, é interessante observar como ela possibilita descrever, com riqueza de detalhes, todas as marcas que foram deixadas, todas as nuances de um amor interrompido abruptamente e que ainda deixa seu perfume no ar!

Lindo texto!!!!
Beijos floridos!!!

Luciana Marinho disse...

sylvia, grata pela presença no máquina lírica!

...e essa dor de amor sempre a nos fitar...

beijos!

Clara disse...

OMG... Quatro pontos marcantes: A felicidade, a partida, a saudade e a culpa. Digno deu virar um romance daqueles com fim trágico. Amo romances assim! :D

Lindo!