Este blog é uma reunião de textos exclusivamente autorais. Para conhecer mais de mim, dividir sons e sabores poéticos, musicais, cinematográficos, e tantos outros cheiros mais além dos meus, venha tomar um expresso esparramado nas almofadas fofas do meu outro blog, o Abundante-mente. Te espero lá com as velas acesas.

18 de junho de 2010

(In)conjugável

As palavras me cicatrizam, instantâneas feito ópio. Ou talvez uma dose cavalar de morfina, que amortece displicente os lobos cerebrais - certeira como a lágrima que se arremessa impávida do alto da face, pouco antes do inevitável endurecer do coração. Não existem meios de me desnudar dos medos e anseios, sem permitir que frases inteiras-atropeladas me irrompam libertas do útero em chamas. Mesmo que eu as mantenha militarmente algemadas aos sentimentos mais inúteis, elas me jorram altivas e incontestes. Não há como manter o respirar cadenciado sem que a maldita tela, de algum maldito computador, seja lentamente preenchida pelas dores e os amores que me invadem e escorrem incessantes, todos os dias.
Escrever é minha libertação. E a mais sufocante das clausuras. Minha incoerência e militância. É ao mundo que esbravejo febril os gritos lancinantes, desesperados e insanos da fera enjaulada em seu próprio peito. É ao outro que suplico cuidado com o que me vaza e esvazia - porque isso é tudo o que me resta. É lá - bem lá no meio das tantas folhas soltas e desconexas que me revelam - que sucumbem exaustos os poucos pedaços mais preciosos de mim. Os que me são e os que me ausentam. E ainda aqueles que - não sendo nem um, nem outro - vivem de almejar uma identidade, qualquer que seja ela; como um vulto que aguarda ansioso o breve mas caloroso aceno, sentado imóvel diante da janela de um trem que parte sem olhar pra trás. E assim, como quem se resigna diante de um mal irremediável, segura constato que é, sim, no contorno delicado e dolorido dessas letras latejantes que me encontro - feito rosto que reconhece as suas próprias marcas em olhares alheios. E que, neste materno aconchego de ninho aquecido pelos verbos mais inconjugáveis - invariavelmente - me perco. Com os poros famintos e o peito escancarado.
Sempre sorrindo e sangrando.
Di la cer  ando.

Sylvia Araujo




PS: Com um beijo enorme na careca brilhante do Sara-Mago das palavras. Ficamos aqui abraçados com as suas deslumbrantes letras e com a saudade apertada dos muitos mundos que ainda estavam por vir. Ainda bem que palavra alada é imortal.


"Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia."
José Saramago

4 comentários:

Kenia Cris disse...

Dito com a força feminina, que muita gente desconhece. Beijo!

Elis disse...

Ola Sylvia, tudo bem?
Estou retornando devagar, espiando os blog's que tanto gosto ... e quando chego aqui, falta-me o ar para concluir a leitura do teu texto!
Simplesmente adorei. Gosto desta forma de escrita, que deixa sangrando tudo, e curiosamente, até me acalma!
Belíssimo texto.
Abraço
Elis.

Leo disse...

Beija flor, soprasse e eu vi entrando pela janela. ilumina-me!

Beijos!

Cynthia Lopes disse...

Sylvia, que texto absurdo de lindo!!!!`Sim é estranho, dizer "absurdo", mas é a maneira de poder expressar o meu descomunal espanto. Sangramos e sagramos palavras todos os dias e ainda bem que as escolhemos perfeitas para que elas possam permanecer nos corações...
bjs