Este blog é uma reunião de textos exclusivamente autorais. Para conhecer mais de mim, dividir sons e sabores poéticos, musicais, cinematográficos, e tantos outros cheiros mais além dos meus, venha tomar um expresso esparramado nas almofadas fofas do meu outro blog, o Abundante-mente. Te espero lá com as velas acesas.

23 de junho de 2010

Borrão

Nossas mãos se abraçaram. Apertado, feito menino com medo de escuro - não me envergonho. Aqueles cabelos compridos - fatia de franja beijando a bochecha com displicência - acalmavam meus nervos. Nunca na vida provei boca tão doce, mesmo quando cuspia impropérios. Ela era eloquente. E dia claro - soluço raro nas minhas noites insones. Seu olhar me entorpecia inteiro quando vinha lânguido, cheio de braços a me engolir. E o meu olhar suspirava por ela. Todas as manhãs eu derretia. Tinha dias acordava espinhos, e mesmo enraivecida cheirava a rosas - que tipo de magia ou encantamento tinha emanando pelos poros ou vertendo por entre as pernas, eu não sei. Só sei que eu era dela. Inteiro dela, enquanto me quisesse ao meio. Acontece que Marina era tanto - e tão tudo de uma vez só - que metade era muito pouco pr´aliança de eternidade. E derramamos lágrimas no fazer das malas, e dobramos juntos as meias brancas, e enchemos a cara de vinho tinto antes de fumar, cúmplices e esvaziados, aquele último baseado. No aeroporto - seu all star vermelho roçando de leve as minhas havaianas sujas, suas mãos suadas mastigando os meus dedos frios, eu indo pra perto e ela pra longe de mim - eu tive a absoluta certeza de todas as nossas incertezas. E desse momento em diante, a ausência dela choveu tanto dentro de mim, que o meu coração borrou.


Sylvia Araujo




PS: Poeta de mão cheia - das pequenezas que se sabem inteiras - Geraldo Barros, do lindíssimo Sem Catraca, empresta seu verso-chuva às minhas letras. O link, como sempre, borboleteando lá em cima.

9 comentários:

Kenia Cris disse...

Fabuloso Sylvia! Me deu até um arrepio. Coisa linda de ler é o amor, mesmo inventado.

Beijo sempre grande!

Sabiana disse...

Ai que vontade de gritar bem alto:
esse conto é perfeitooooooooooooooo!

Vou guardá-lo na primeira gaveta do meu criado falante e quanto eu esquecer de entender o porquê de um certo desamor, suas palavras me lembrão que:

'metade era muito pouco pr´aliança de eternidade'

parabéns queridona!

Leo disse...

ahhh que perfeito! e também fechou com chave de ouro. escreves lindamente minha menina.
deu até saudade de quando eu tinha saudade. hoje espero presença.

Beijão, querida!!!

dade amorim disse...

Oi, Sylvia.
Bonitos demais seu blog, seus textos e a simpatia que você distribui.

Beijo pra você.

Pedro Antônio disse...

Obrigado, Sylvia!

Você é um anjo e seu blog um sonho.

Beijooooooooooooooooooo.

Pedro Antônio

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Ela é uma mistura de razão com sensibilidade.


Todalindaela.

Beijos e abraços meus!

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

...traigo
sangre
de
la
tarde
herida
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...


desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ


TE SIGO TU BLOG




CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...


AFECTUOSAMENTE
SYLVIA

ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE BLADE RUUNER , CHOCOLATE, EL NAZARENO- LOVE STORY,- Y- CABALLO.

José
Ramón...

A. Reiffer disse...

Ótimo teu blog, parabéns!

Lily disse...

Fui me arrepiando enquanto lia, engolindo as palavras, lendo sem a mínima vontade de parar. Caminhei com vocês e vi a despedida no aeroporto. Tão bom!

P.S.: Obrigada pela visita e pelo comentário tão lindo sobre as cartas. E, adorei suas palavras no Blog do Helcio, "gente que anda com pantufas de nuvens pelo gramado..."