Este blog é uma reunião de textos exclusivamente autorais. Para conhecer mais de mim, dividir sons e sabores poéticos, musicais, cinematográficos, e tantos outros cheiros mais além dos meus, venha tomar um expresso esparramado nas almofadas fofas do meu outro blog, o Abundante-mente. Te espero lá com as velas acesas.

2 de julho de 2010

Pra puta que pariu

Vento na cara, a cabeça quase toda pra fora da janela e um sorvete de baunilha derretendo na mão. Exatamente essa foi a cena esdrúxula que me fez sentar ao lado daquele cara quase maltrapilho que escutava Roberto Carlos no último volume, num mp3 fodido de visor rachado e que ainda por cima fedia a cerveja choca. O mais inacreditável é que ele quase não se mexeu quando lhe dei um tranco na perna direita escancarada, como maneira educada de dizer chega pra lá, ô caralho! Fiquei intrigado, te juro. Quem é o retardado que meio dia - sol à pino -  um calor do caralho fundindo qualquer cérebro que efetue a mais mobral das adições, fica em pleno ônibus em dia de branco praticamente gritando "vou me agarrar aos seus cabelos, pra não cair do seu galope", enquanto aquele creme amarelado e espesso escorrendo em bicas pelos dedos caga a calça toda? Visão do inferno, né não? E ainda assim, com pelo menos doze opções de lugar pra sentar em paz, eu queria estar sentado ali. Você pode elaborar todas as teorias psicológicas embasadas em todos os estudiosos de mentes insanas que talvez nem tenham nascido, e com certeza não vai conseguir chegar a uma conclusão plausível. Nem eu. Nem ninguém. Porque é realmente impossível compreender o que pode atrair alguém feliz, bem sucedido, filho de pai e mãe equilibrados, carreira de administrador de empresas em plena ascenção em um ano e meio de formado, e um namoro de quinze anos sem qualquer tipo de estremecimento ou ruptura - e olha que eu só tenho 28 anos! - a um pulha desses. Um merda, um meia-boca, que provavelmente mora com os amigos em um muquifo qualquer, porque ninguém suporta nem merece limpar tanto vômito consecutivo nessa vida. Tô falando besteira? Acontece que esse filho da puta do André mudou a minha vida. Você deve estar aí se perguntando: peraí, como é que esse cara sabe o nome da figura? Pois bem, eu preciso te dizer uma coisa muito séria. A partir daquele dia que aquele cara levantou daquele banco cinza imundo, o cabelo todo desgrenhado por causa da ventania poluída, enfiou a mão gosmenta no meu ombro e falou foi mal aí, irmão, eu larguei aquele emprego de bosta, mandei todo mundo pra puta que pariu, troquei aquela anta por uma viagem de mochila pela Europa, tomei o maior porre da minha vida - tá, disso eu não me orgulho - e comprei um violão. Hoje eu te digo de coração, meu camarada: não tem nada melhor nesse mundo do que sentar com aquele merda numa praça, birita e cigarro do lado, sentir esse vento fedido na cara e tocar um blues até a lágrima cair.

Sylvia Araujo



PS: Pra conhecer a alma livre, que fez com que esse texto me brotasse inteiro de uma só vez, praticamente sem pausa pra respirar, clique aqui e aqui. Valeu garoto, você é bom! ;)

5 comentários:

Lily disse...

Sylvia,
Adorei o texto! Ótimo, ótimo! Li de uma vez só, sem querer parar. Gostei do final, e eu ainda nem havia tido tempo de pensar em como seria. Quando não é bom, a gente vai pensando, enquanto lê, "como isso vai acabar?", mas eu nem percebi. De repente, o cara larga o emprego bosta, deixa a anta, vai pra Europa. Tudo graças ao desgraçado chamando André. Surpreendente.

A Mina do cara! disse...

Gostei!
E é isso aí mesmo, um camarada qualquer pode mudar a vida da gente...

Leo disse...

Nem parei pra respirar, acho que até lendo somente, esse indivíduo mudou a minha vida também.

Beijaaao.

Sabiana disse...

Sylvia,
Que saibamos sempre - sem muito pestanejar, sem muito temer, sem muito pesar - deixar que o avesso nos tome e nos torne senão melhores, mais felizes... é o que importa!

bju enorme de quem te admira!

Lily disse...

Voltei, Sylvia!

Fico rindo o tempo todo... é demais! Eu vejo aquela cara do André pra fora do ônibus, berrando "vou agarrar os teus cabelos...", passando numa avenida qualquer de uma capital brasileira, aquele calor, aquele ônibus cheio, o cabelo dele ventando e o sorvete escorrendo... Risos...Risos...Risos...